Vida Continuada

pq ela continua, independente de vc e eu.

5.6.08

Sobre Segredos e Chão


são muitos os segredos que me pesam o corpo e a vida
muitos, de muitas pontas.
são muitos os fatos, me populando, sendo legião.

são muitas as quinas, muitas as câimbras, muito me faço torto, porque os encaixes são poucos e o desejo, imperioso.
são tantos, esses segredos, que acabo sozinho, rei do reino, penando por campos, negando a água, negando o sol, negando o pasto e o sal.

Dessa minha arena pública, desses meus enigmas partilhados, dessa face que mostro,
ninguém percebe,
ninguém entende,
ninguém sabe

da vida transfigurada em chumbo
das profundezas, plúmbeas, sufocantes de cinza
estruturada para a continuidade, sem espaço para o vôo
permaneço preso ao chão, fazendo-me ancora de sonhos
como sempre foi, agrilhoado no que nunca deixará de ser

chumbado na cantinela do dia a dia
dervixe estático
acumulando tensão
de chumbo me fiz
de chumbo me cubro
na densidade, sou

e ainda assim surpreendo, sou causa de estranheza
olham torto, não entendem, não concedem a possibilidade;
alguém abriu mão de ser feliz.

mas acontece
abri mão, desviei os olhos da meta
essa universalidade não é minha
não sei absorver

é uma vida peculiar, por assim dizer, uma vida sólida
muitos apontariam para dizer; "Vida ruim! Vida de dor!"
mas eu, bem,
não colocaria dessa forma
existe algo de real, algo verdadeiro
algo que compensa todo resto
algo que não existe na realidade dos sorrisos e pequenas conquistas
algo que não existe nas pequenas metas, nas pequenas satisfações

é uma realidade dura, para poucas disposições
minguados os que tentam, raros os que conseguem
mas ainda assim, insisto

a felicidade, afinal, apesar de boa meta, justificável, sensata, não carrega em si nada que contradiga o óbvio, nada que sugira uma rota de fuga, nada que permita o fim da samsara
é aceita, é partilhada, é parte da pasteurização
não encaixa, romântica que é, na placa de petri em que vivo cada dia

abri mão, sim, da felicidade
surpreendentemente, ela acontece
por mais que alienígena
por mais que renegada

surpreendentemente, a vida se apresenta
nas ofertas colocadas, nas opções sugeridas, na idéia e na hipótese, a vida me surpreende
ela se impõe

mostrando a face que agrada
girando mais uma vez a roda
coloca em mim as justificativas para tentar
e aceito, aceito a impressão, aceito a dor de querer e pensar que é possível

surpreendentemente
essa coragem
essa idéia
que vai decantando em mim
se transforma, grão a grão, no chão do que sou
para que um dia, enfim ereto, enfim de pé, sem apoios ou escoras, possa absorver, totalmente, o horizonte que sempre me pertenceu.

Até lá, sigo cinza, sigo dizendo não.

15.4.08

Sobre pedaços perdidos de história


Os dias passavam em vão.
Dentro das expectativas encontrava tudo que era preciso para subsistência. Alguma escuridão para pedir a luz, alguma luz para justificar a escuridão.
Dias com suas horas cheias de minutos apinhados de segundos gotejantes de nada, transbordando nada, me afogando em nada. Subsistindo no nada.

--

da inveja que me corrói, quando te vejo assim, tiro poucas lições e priorizo as cicatrizes. Chafurdo em piedade apodrecida, concorro com ácaros por restos do seu rastro, me alimentando de pele e cabelo, vivendo à sombra.

--

Mas havia aquela hora, perto do fim da noite, antes do começo do dia, quando tudo aquietava e a manhã ainda era límpida em suas possibilidades. Nesse momento, durante poucos minutos, o plano se revelava e tudo parecia valer a pena, as dores justificadas e os trilhos, tão retos, podiam, enfim, se encontrar no horizonte.

25.3.08

Sobre um Pêndulo


interessante
depois de tanto tempo, algo interessante
de conclusões novas e novas possibilidades
mesmo que travestido de nuvens pesadas
mesmo que embalado na inércia de coisas escuras
um novo caminho se apresentou

e o pêndulo varia
habitando novos espaços
oxidando em novos ares

--

a piedade e compreensão podem nascer nos momentos mais insuspeitos.
uma flor de lótus no seu reino de lama.

3.3.08

Sobre Modus Operandi


    no turbilhão que se segue, é mister observar as seguintes precauções:

    01) analise, classifique e compartimente
    02) respeite o prazo nas etiquetas
    03) na ausência de imediatismo prático, assumir desprendimento específico
    04) reconhecer as variáveis possíveis, ajustar estoque de reações conforme
    05) diante de variáveis de resolução impossível, recorrer as práticas supracitadas nos pontos 2 e 3
    06) separar parte da capacidade para a manutenção do minuto de espera, da hora de espera e do dia de espera.
    07) definir o tanto necessário para que a espera - minuto, hora e dia - seja administrável
    08) em momentos de baixa, recorrer à ciência
    09) atenção especial na manutenção da clareza, no correto dimensionamento, na devida reação
    10) incluir a impermanência em todos os cenários previstos


      11.2.08

      Sobre Custos


      estejam todos avisados
      aqui não reside uma pessoa feliz

      estejam todos avisados
      desta entrada escura não sairão sorrisos e alegrias

      aqui reside-se numa caverna que não se sabe o fundo
      morcegos revoam pelo teto, coisas rastejam cegas, goteja-se sem som

      a todos os que aqui entram; entendam
      nessa escuridão a luz não vive e o tato é o que resta
      entendam
      as arestas são afiadas e o avanço é cobrado em sangue

      entendam que nem eu sei o prêmio dos que pagam as profundezas

      as paredes não sabem de dor ou sangue ou motivos

      Sobre o Caminho


      me dói a semelhança
      do formato do crânio
      e do jeito que o cabelo enquadra as orelhas

      dos dentes como o de minhas sobrinhas
      e das maçãs do rosto, de futuro tão óbvio quanto um espelho

      de tudo mais que só imagino, me dói a semelhança do que sei, semelhança herdada, herança maldita

      que dói tanto, que vaza pralém do poço em que foi enterrada, que contamina córregos e envenena rebanhos, mata flora e fauna, que me relega desertos cheios de som e fúria e nada mais.

      e esse é o caminho, não procuro mais desvios, não procuro mais saídas.
      esse é o caminho, e os anos vão dizer o peso e o custo de cada passo.

      20.11.07

      Sobre sabedoria


      existe uma nobreza no patético, uma certa grandeza de aceitação
      (lembre-se disso)

      e leveza.

      mas, se ainda doer, se ainda te disser; pessoa patética!, lembre-se:
      são lições
      (lembre-se)

      12.11.07

      Sobre Sonhos


      se eu não fosse tão instrumental no uso de minha dor, talvez já tivesse desistido.

      mas sou assim, prático ao ponto da paralisia, tão lógico que dou a volta completa e alcanço, por detrás, o absurdo. incoerente de tanta explicação.

      e não controlo meus sonhos, e não controlo mais nada, e me vejo assaltado por detalhes que grudam na minha pele, queimam meus olhos e inundam minha vida com coisas antigas e perdidas.

      pequenos detalhes
      fios muitos lisos e escuros
      a posição de alguma mancha
      a distribuição dos músculos
      e um distanciamento quase piedoso que me faz querer berrar a injúria da piedade e tomar tudo para mim, como neanderthal em que me transfiguro diante da catedral da sua ausência.

      --

      o que me salva é a minha praticidade
      e lá pela hora do almoço, as coisas terão voltado ao normal.

      22.10.07

      Sobre um Poeminha


      e a vida passando
      e você se perdendo
      alguma coisa se destaca
      levando, momento a dentro

      do escuro para o breu
      roçando em quinas
      tropeço (suas minas!)
      um tudo que ainda não morreu

      me encontro então,
      cego
      me encontro então

      morto
      a morte em vida
      a ausência ressentida
      um sorriso sem dentes
      escorado nas gengivas

      arremedo de feliz
      montado por feridas
      galopo escuro adentro
      contabilizo minha vida

      mas
      se na vida tivesse
      em você um convento
      num mártir redivido
      encontraria algum contento

      pois
      a fé nos justifica
      enquanto quem está e espera
      pois
      você me justifica
      enquanto quem desespera

      21.9.07

      Sobre uma janela que ilumina


      agora, me retiro desta janela que ilumina minhas dores, dou por encerrado este dia de fraqueza e vou me esconder por detrás de um pequeno fogo em brasa, com a cabeça inclinada, pelas calçadas que eu alcanço.

      retomo, então, minhas regras, na espera, até a próxima estação de fragilidade.

      Sobre Ritos e Dores


      a experiência é multi facetada, se enverniza na regra quebrada e dá tons inesperados ao que já se achava habituado.

      --

      uma das minhas várias estranhices quando criança era minha relação de prazer quase masoquista com pequenos machucados.

      nunca soube direito como isso se dava, mas a pele ralada, com o sangue seco cobrindo a carne exposta, me trazia sensações boas. não agradáveis, mas boas. como se eu pudesse sentir diferente uma parte minha que era invisível. como se eu pudesse ser.

      pensava que os machucados eram, para mim, um símbolo de normalidade, algo esperado de crianças e, por isso mesmo, tão alienígenas na minha vida. me sentia mais normal tendo os cotovelos escalavrados em algum chão, para viver, enfim, merecedor como os outros.

      nunca nenhum osso quebrado, nunca maiores problemas em função de desafios e provocações. nunca nenhum hematoma por brigas, nunca com os dedos doloridos. a vida passava por sobre minha incapacidade de levantar e impor.

      --

      me proibi certas coisas para não ter de lidar com certas esperanças.
      (obediência nunca foi o meu forte)

      sob esta luz, percebo que não gosto de reverberar, pq, no fim, reverbero em vão, apesar de reverberar, sim.

      --

      e a vida continua em sua vastidão sem me permitir o esquecimento, por mais esquecido que eu tente me fazer, e o mundo se faz enorme, para que eu permaneça, sem chegar, no caminho de casa.

      20.9.07

      Sobre tipos de Rios


      Pain lies on the riverside
      Live

      I have never taken Life
      Yet I have often paid the price
      And you, you are a victim of this age
      And the guilt that hangs around your neck
      Has got me locked up in a cage

      You've got to learn to live until no end
      But first you must learn to swim
      All over again
      Because...

      Pain lies on the riverside
      And Pain will never say goodbye
      Pain Lies on the Riverside
      So put you feet in the water
      Put your head in the water
      Put your soul in the water
      And join me for a swim tonight

      I have forever, always tried
      To stay clean and constantly baptized
      I am aware that the river's banks are dry
      And to wait for a flood
      Is to wait for life

      I've got to learn to live until no end
      But first I must learn to swim all
      Over again,
      Because...

      Pain lies on the Riverside.

      14.9.07

      Sobre uma Pergunta com Asas


      não é que não ame mais
      só, talvez, nunca tenha amado, nada

      o encaixe atrofiado não aceita
      e uma pergunta me circula;
      - amor? que amor?

      4.9.07

      Sobre meu medo


      existe esse medo.
      medo da morte, medo do vazio de significado.
      sem significados, nos definimos pela dor, nos pautamos pela força de sobreviver mais um dia, nos tornamos amargos na prática diária do próximo passo, da próxima espera, do próximo problema.

      existe essa prática.
      existem métodos para a sobrevivência, e a cada dia que passa desenvolvo novos, me afundo em antigos, respiro caminhos tortos para fins duvidosos e aprendo coisas que ninguém deveria aprender.

      existe uma realidade.
      dentre tantas, logo essa.
      nela me expremo, de tão maior que sou, e choro, calado, minha claustrofobia de viver.

      16.7.07

      Sobre uma Porta Branca, que vibra quase imperceptivelmente


      porta número 10, porta número 11... mais alguns passos, porta número 12, porta número 13, 14 e 15.
      porta número 15, esse é o número certo. 15.
      nada de diferente das outras portas, além do fato de ser a décima quinta. não sei exatamente pq a escolhi. não sei se escolhi, na verdade, mas uma vez escolhida, me parece perda de tempo exigir os porquês.

      de volta a porta, ela é branca.
      os números, cobre falso, daqueles que são de plástico, cor asa-de-barata. os números serifados, naquele estilo portão de casa, arrojo em fôrmas.
      me parece que uma vibração vem do outro lado, mas nada muito perceptível. uma certa vida, por assim dizer, vibrando nas dobradiças, mas nada muito perceptível. posso até imaginar alguns significados, posso me colocar no centro de uma história, onde o pulsar vem pesado de significados, e cada variação de tom guarda uma mensagem secreta, de decifração impossível, mas a vibração não é assim tão perceptível.

      uma vez diante da tal porta, branca, com números em cobre-falso, vibrando, mas nem tão perceptivelmente assim, me resta decidir o próximo passo. quantos passos são possíveis diante de uma porta branca vibrando discretamente?

      - bater educadamente
      - abrir de supetão
      - abrir com cautela
      - colar o ouvido para saber se alguém está
      - dar meia volta e ir embora
      - sentar, costas apoiadas no branco que vibra quase imperceptivelmente, e ponderar sobre a natureza das portas brancas

      portas brancas poderiam ser uma metáfora do inefável.
      não uma metáfora sobre o inefável, mas uma metáfora criada pelo inefável. uma porta branca, a décima quinta, pode guardar tudo dentro de si.

      --

      esta porta número 15, branca, com uma vibração quase imperceptível, tem um aparato de abertura.
      digo aparato de abertura, ao invés de maçaneta, pq maçaneta é pouco para o aparato de abertura. existe uma maçaneta, sim, mas ela se encontra no centro de um halo branco e gelatinoso, pontilhado de pequenas manchas dançantes que são, na verdade, infinitas pupilas histéricas. este halo me parece, acreditem, com fome. fome de identificar, de cumprir sua função, e mais que isso, fome pela falta de propósito. a saciedade dos justos cumpridores do seu quinhão.
      para abrir a porta, é preciso colocar a mão no centro do halo, para assim alcançar a maçaneta. no intervalo entre o começo da mão e o segurar da maçaneta, enquanto vc abre espaços na quase-carne translúcida, todos os seus sonhos são contabilizados, classificados e armazenados. suas conexões para a felicidade são especificadas e, no fim, o aparato de abertura sabe. sabe a ponto de renegar sua mão, numa lição dolorosa para aqueles que tentaram a porta que não lhes pertencia.

      agora, diante da porta branca, número 15, de vibração quase imperceptível, e aparato de abertura cruelmente surreal, me pergunto o que fazer.

      Sobre 29


      bem-vindo aos 29, miguel

      momentos, sob momentos
      e dias, após outros dias
      e sombras brancas, e gólgotas pelas paredes, agrilhoado pelos punhos e tornozelos, com o coração devorado a cada fim de dia, Prometeu de minha megalomania.

      meus fronts
      sempre meus fronts e suas trincheiras.
      cavadas na pele, endurecidas de sangue pisado, testemunhas de guerras sem nome, provas das minhas vitórias, estigmas das minhas derrotas.

      o front do erro, do desvairo, do irreparável.
      o front da irresponsabilidade, da vergonha, do inegável.
      o front das exigências, para sempre impossíveis.
      o front dos espaços externos, gelados, inóspitos e imensuráveis.
      o front do meu amor.

      --

      compreendi.
      compreendi sem palavras, compreendi num átimo.
      compreensão inexplicável.
      mas compreendi.

      não fico mais tão triste, não fico mais tão ancorado em sombras, minha felicidade se descolou daquele momento e seguiu adiante, coágulo por artérias, atrasada, descompassada com meu presente, mas resoluta, definida desde sempre em sua função de morte
      - sim, acredite, estou a ponto de te alcançar, portanto não desista, e dance, igual ao livro, igual ao oráculo, igual a fantasia, dance até seu coração explodir, até se dissolver em tudo, até se esvanecer em silêncio, até alcançar a amplitude branca que foi prometida. ela será sua, um dia.

      um dia qualquer.
      e, até lá, nos fronts, guerreando pelo silêncio, guerreando por vc.

      2.7.07

      Sobre Dissonância Cognitiva


      Cognitive dissonance is a psychological term which describes the uncomfortable tension that may result from having two conflicting thoughts at the same time, or from engaging in behavior that conflicts with one's beliefs. More precisely, it is the perception of incompatibility between two cognitions, where "cognition" is defined as any element of knowledge, including attitude, emotion, belief, or behavior.

      The theory of cognitive dissonance states that contradicting cognitions serve as a driving force that compels the mind to acquire or invent new thoughts or beliefs, or to modify existing beliefs, so as to reduce the amount of dissonance (conflict) between cognitions. Experiments have attempted to quantify this hypothetical drive. Some of these examined how beliefs often change to match behavior when beliefs and behavior are in conflict.

      14.6.07

      Sobre o Cansaço


      desacostumado com o sim nas coisas. absolutamente desacostumado.

      nem faz tanto tempo, tão eficiente, mesmo nos problemas.
      eficiente na sabotagem, mas eficiente, mesmo assim.
      agora, perguntas muito antigas rejeitaram suas respostas-irmãs.

      a vida avança.
      - não, você não entendeu. ela avança.

      e a procura prossegue, incompleto, sem achar, realmente, o que eu quero.
      mas questiono.
      o primeiro passo para onde?
      - não sei. eu não sei.
      viver numa seqüência inescapável de coragem e fuga.
      pelo menos para mim.

      essa vida inescapável se entranhou. talvez tenha alcançado um acúmulo alto o suficiente para me fazer ver um novo pedaço dos espaços externos. talvez tenha me repetido demais.

      visão quase real.
      - o passado como uma parte de mim que teve sua alimentação cortada, mumificando, resistindo como meu testemunho morto. uma gigantesca massa de lodo cinza, vitrificada pelo calor.

      será que será sempre assim?
      será que a existência é isso, a vida é isso, as promessas são essas e o momento da paga já passou?
      esse é o prêmio para quem sobreviveu?

      cansaço terrível e imperioso.

      28 anos e é nisso em que chegamos
      - obrigado! obrigado por me permitir iluminar através de processos de perdão!

      pro inferno
      todos pro inferno
      comigo na frente da procissão

      1.6.07

      Sobre Chão


      me falta alguma coisa
      (alguma coisa que abunda nos outros)
      a esperança fácil, esse flanar pela vida, a crença no último respiro de ar quente que impede o chão.

      meu chão sempre foi muito próximo
      (e duro)
      (e inevitável)

      ocupando o que me falta, feliz na oposição ao vácuo, feliz num propósito simples, feliz aonde eu não sou, esse chão é meu companheiro constante na esperança.

      mas meu chão nunca chegou, apesar da vivência permanente do impacto, dos dentes partidos e do rosto em polpa.
      meu chão nunca chegou, e parte de mim segue presa, esperando a dor.

      25.4.07

      Sobre Falcões


      The Second Coming
      W. B. Yeats

      Turning and turning in the widening gyre
      The falcon cannot hear the falconer;
      Things fall apart; the centre cannot hold;
      Mere anarchy is loosed upon the world,
      The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
      The ceremony of innocence is drowned;
      The best lack all convictions, while the worst
      Are full of passionate intensity.

      Surely some revelation is at hand;
      Surely the Second Coming is at hand.
      The Second Coming! Hardly are those words out
      When a vast image out of Spiritus Mundi
      Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
      A shape with lion body and the head of a man,
      A gaze blank and pitiless as the sun,
      Is moving its slow thighs, while all about it
      Reel shadows of the indignant desert birds.
      The darkness drops again; but now I know
      That twenty centuries of stony sleep
      Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
      And what rough beast, its hour come round at last,
      Slouches towards Bethlehem to be born?

      9.4.07

      Sobre o Frio


      como é possível gostar tanto de uma cidade que tanto maltrata?
      das suas avenidas hemorrágicas em sua morte lenta, do massacre diário até o recolhimento das sobras, como é possível?

      é o frio, eu respondo
      o frio que permite

      Sobre um Rio


      aqui tenho algumas plantas
      pouca vista, paisagem escassa, é verdade, mas tenho conforto, e as coisas soam como vindas de mim

      lembro das paradas anteriores
      um banco de areia, numa curva
      uma pedra muito dura, com alguma maciez no musgo
      e antes, o primeiro galho, o primeiro lugar onde pude me levantar acima da linha d'água

      no começo, respirar era a única agenda, alguma forma de escapar do sufocamento
      meu mérito era o ar
      depois, meus pulmões cheios não eram suficiente, queria meu corpo por inteiro, queria secar tudo que ainda vivia submerso, evaporar cada gota.
      meu mérito seria o sol

      nessa época ainda não percebia inteiramente os custos de uma esperança, muito menos os verdadeiros riscos de tentar

      nas primeiras percepções de felicidade, deformadas em mim, tudo valiosamente frágil, um castelo de cartas e um ventilador

      para responder à vontade, precisava me deixar levar, talvez submergir novamente, talvez afogar, enfim

      do galho para a pedra, da pedra para a areia, o processo se repetiu, mas eu não
      não me dispus as mesmas dores
      gosto de pensar que cresci, que descobri a incrível capacidade de boiar, que entendi a dinâmica dos fluxos

      não sei se afoguei alguém no frenesi pela superfície, e, sinceramente, não me acredito mais tão capaz, tão poderoso
      as ondas me ensinaram
      e deixei de me importar

      agora tenho algumas plantas e algum conforto
      estou seco há muito tempo, deixei o sol lidar com os resquícios do percurso
      me cerquei de mim mesmo

      e, no entanto, as águas escuras me chamam
      escuto meu nome nas ondas

      minha pele seca e o meu passado
      entendemos, afinal, a beleza da umidade

      28.3.07

      Sobre Recados


      Pérola Negra
      Luiz Melodia

      Tente passar pelo que estou passando
      Tente apagar este teu novo engano
      Tente me amar pois estou de amando
      Baby, te amo, nem sei se te amo

      Tente usar a roupa que eu estou usando
      Tente esquecer em que ano estamos
      Arranje algum sangue, escreva num pano
      Pérola Negra, te amo, te amo

      Rasgue a camisa, enxugue meu pranto
      Como prova de amor mostre teu novo canto
      Escreva num quadro em palavras gigantes
      Pérola Negra, te amo, te amo

      Tente entender tudo mais sobre o sexo
      Peça meu livro querendo eu te empresto
      Se intere da coisa sem haver engano

      Baby, te amo, nem sei se te amo

      16.3.07

      Sobre Moscas


      moscas em meu nariz
      moscas na minha garganta
      asas esbarrando em molares na pressa de sair

      em meus olhos
      lágrimas negras de moscas
      e pelos cabelos, frenéticas
      moscas debatendo moscas

      e o zumbido
      e o zumbido
      e o zumbido

      2.3.07

      Sobre o Mar


      dia a dia, diluo meu resto de inocência nesse mar, nessa (agora) imensa massa de água noturna, reduzindo a medidas homeopáticas minha capacidade de aceitar.
      estranhamente, o resultado é bom.

      freud deixou o prédio
      cansei desse relativismo
      prefiro meus símbolos
      meu códice

      o entendimento e a tentativa
      meu amor
      silenciosos
      todos eles, silenciosos
      mas todos eles, hoje, plenos
      e assim ficam, plenos
      até o fim das possibilidades
      (e dessa fé estranha que me empurra)

      me faltam palavras, me falta bagagem, pra exprimir certas coisas, alguns momentos, o que eu sinto por vcs, meus sinais de desespero

      minha felicidade torta
      minha dor surda
      meu humor cruel

      um péssimo guia de mim mesmo
      sigo dando todas as explicações
      mesmo quando todos seguem não entendendo

      supreendentemente, sou feliz
      (o que não significa felicidade)
      e tenho alguns momentos de encantamento
      a visão menos turva
      a pele sensível como deve ser

      a febre ainda não passou
      mas a convalescência se aproxima de um fim

      durante muito tempo tudo foi como pus
      parece que cicatrizei

      28.2.07


      mas em mim ainda restam lâminas

      Sobre Miguel


      na verdade, percebo agora que dele tenho muito

      aquietado em lagos escuros e profundos, uma influência silenciosa definindo décadas, ondas cegas moldando a rocha

      ideais
      minha fome por heróis

      I need a father. I need a mother.
      I need some older, wiser being to cry to.
      I talk to God, but the sky is empty, and Orion walks by and doesn't speak.
      Sylvia Plath

      Sobre Tamanhos


      de uma boca escura, dos dentes partidos
      dos olhos embranquecidos, dos ouvidos quase surdos
      uma escada que desce, promesas antigas
      o negrume sem calor ou frio
      quem está no fim? qual das mãos me espera, estendida?

      desde antes, uma matriz conspurcada.
      de onde vem a força? de onde vem a idéia da possibilidade?
      minhas fronteiras selvagens resistem, sempre vão resistir
      abandonado o paradoxo, aceita a dicotomia, o que me resta?
      quem sou eu sem a minha dor?

      ..

      vícios de linguagem e de sentir
      tudo tão ultrapassado

      ..

      o tempo passou, mesmo para mim, que sempre me senti tão lapidal
      tudo mudou, mesmo que para permanecer

      muitos ciclos, muitas reinvenções
      não sou mais o que começou, não sou mais a metamorfose
      não tenho mais versões

      a vida se provou enorme

      ..

      do meu avô materno, tenho pouco
      manhãs à beira da piscina, regata branca, calça de pijama, chapéu de palha, voltas e voltas
      a televisão e a cama, tv bandeirantes e o futebol, uma poltrona de couro encarquilhado
      iodo na ponta dos dedos
      meu ideal de biblioteca, parede enorme e livros de ponta a ponta, "a poeira ajuda na preservação dos livros", coleção de dicionários, um deles de truques mágicos, em francês

      uma ex-libris que dizia ser possível saber o tamanho do universo se soubéssemos o tamanho do homem

      e a vida se provou enorme

      5.2.07

      Sobre a Memória


      se fosse assim, esse lugar, teria pedras umidas de musgo, teria cipós, trepadeiras e osmoses.
      teria grama orvalhada, mosquitos as seis e um pássaro que canta o começo do dia.
      teria uma curva para a direita, numa ladeira, mata adentro.

      lá do começo me vem tudo isso, a cerca branca, as paredes de madeira, os sofás, tantos, e suas salas, seus abajures, a prataria, louça azul e copos de haste, coca-cola em garrafas de um litro.
      campainha embaixo da mesa, o cardápio nas mesmas baixelas, barulhos vindos daqueles espaços contra os quais todo o resto será comparado.

      tenho em mim os armários antigos, caixas e bolsas, cornucópias que me trouxeram aqui, tão dentro de mim.

      tenho em mim a leveza dessa história.
      tenho em mim as cigarras.
      tenho em mim o silêncio e as sombras do fim do dia.

      30.1.07

      Sobre a Coisa


      existe essa Coisa
      dentro de mim, eu acho
      se não dentro de mim, em mim
      mas minha, essa Coisa.

      pois então, como Coisa, e não como nome, me assombra o sono e nega a idéia de que vale a pena.
      (mistérios precisam aceitar a ausência de respostas, e a Coisa não assenta nesse papel)

      muitos rostos foram delegados, um punhado de explicações, vc e vc, mas nada aderiu à superfície d'Ela, escorrendo, sempre, para essas calhas que me coletam, negras.
      insidiosa, a Coisa seria parda, se eminência, tanto que agora não sei mais onde Ela começa e onde termino de me entender.

      mas um dia,
      desnuda a Coisa e aveludada Suas quinas,
      encontro o nome disso tudo que me escapa,
      me cego de vez com a verdade,
      me retiro das paredes, muradas e ameias,
      a vigilância abandonada,
      para poder, enfim, nada ver.

      Sobre Leveza e Ossos


      minha caveira voa
      ou meus olhos morrem, enquanto olham em frente, sempre em frente, enfrentando o vento cortante de frio e tempo
      minha caveira sobrevoa
      ou minha alma ancora, engancha no litoral da sua boca, flutuando ao sabor do vento que não me carrega
      minha caveira, ah, minha caveira, vc afunda
      ou meu folego se transforma, processando lodo e expirando enxofre, me trazendo a vida cinza-esverdeada

      minha caveira voa longe e alto
      mas não me leva, corpo pesado, para onde ela sorri

      4.1.07

      Sobre Drummond e Reconhecimento


      Poema de Sete Faces
      Carlos Drummond de Andrade

      Quando nasci, um anjo torto
      desses que vivem na sombra
      disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

      As casas espiam os homens
      que correm atrás de mulheres.
      A tarde talvez fosse azul,
      não houvesse tantos desejos.

      O bonde passa cheio de pernas:
      pernas brancas pretas amarelas.
      Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
      Porém meus olhos
      não perguntam nada.

      O homem atrás do bigode
      é sério, simples e forte.
      Quase não conversa.
      Tem poucos, raros amigos
      o homem atrás dos óculos e do bigode,

      Meu Deus, por que me abandonaste
      se sabias que eu não era Deus
      se sabias que eu era fraco.

      Mundo mundo vasto mundo,
      se eu me chamasse Raimundo
      seria uma rima, não seria uma solução.
      Mundo mundo vasto mundo,
      mais vasto é meu coração.

      Eu não devia te dizer
      mas essa lua
      mas esse conhaque
      botam a gente comovido como o diabo.

      2.1.07

      Sobre Auto-conhecimento


      um dia, alguém muito importante me falou que não tinha mais orgulhos pessoais
      isso me esquentou como um tapa

      logo quem, logo eu, logo o orgulho
      minha reconstrução toda feita em cima de minhas medalhas, e vc vem me dizer que não tem mais orgulhos pessoais, como se isso fosse uma grande evolução
      diz que está bem, que é feliz, que nunca esteve tão em si, e que andar na ponta dos pés não é mais um hábito

      me senti tão pequeno, tão infantil
      logo quem, logo eu, logo a maturidade
      minha vida galgada em minhas dores, meus diferenciais marcados pela idade forçada antes da hora

      auto-conhecimento, coragem, aceitação, harmonia, fluidez
      zazen

      me fez invejoso, querendo tudo isso
      tantos sentimentos espinhosos brotando em mim, quando tudo que eu queria era o perdão silencioso e um retorno que ficou impossível há muito tempo
      me tornei amargo, mesmo que essa amargura tenha sido destilada em silêncio
      era muita coisa em jogo, mais do que vc pode imaginar

      logo quem, logo eu, logo com vc

      isso passou
      dos meus orgulhos, dentre todos que compõe meu caos pessoal, um dos maiores é a minha capacidade de aprender, principalmente quando dói
      foi bom ouvir um não, foi bom que tenha doído, foi bom me sentir pequeno
      isso é coisa rara, meus sistemas impedem esse tipo de auto-percepção
      (sim, necessito constante evolução, felizmente)
      e uma dose de realidade se faz necessária, principalmente quando todas as suas defesas estão esquecidas e seu coração está na mesa

      morri naquela noite, meu cadáver ficou na mesa do café, minha alma acompanhou vc até sua casa, para desaparecer, logo depois, no seu passado
      essa parte da história termina aqui, junto com minha morte naquele café

      mas, como não poderia deixar de ser, aquilo que sou sobreviveu, e como sobrevivente, não soube outra coisa além de vagar até em casa, para a continuidade daquilo tudo que eu queria mudar quando me joguei, esperando suas mãos na vazio, mãos que nunca vieram (nem nunca poderiam ter vindo, hoje eu sei)

      sobrevivi, sim
      logo quem, logo eu, claro que sobrevivi
      essa é minha especialidade, vc não sabia?
      o que era amargura esfriou numa dor mais branda, num aprendizado importante, mais um bloco nessa construção torta

      vc ainda é muito importante, tenho a impressão que isso nunca vai mudar
      me pergunto o que faria se te esbarrasse numa festa
      acho que sentiria vergonha,
      vergonha de minhas esperanças e tentativas, vergonha de ter acreditado que ainda valia a pena, que o esforço era válido, mesmo com tantos anos corroendo as lembranças do que foi bom
      (sim, vergonha, eu sou um ser de orgulhos, não se esqueça)
      talvez não falasse com vc, talvez pensasse que tudo que eu tenho pra te oferecer não importa mais, que fiquei muito para trás em minha pequenez de alma, em minhas metas tão terrenas
      ou, talvez não, talvez conversássemos pacificamente, e eu poderia te contar como foi importante morrer naquele café, como foi longo o caminho que eu percorro, e como tenho um enorme carinho por tudo que passou, mesmo que sabendo que aquele sonho morreu junto de mim.

      Sobre Unhas e Gratidão


      a dor não vai passar
      aprendi a crescer à sua volta

      envolvo com raízes grossas esse pedregulho de dor que me mantém,
      aceito as quinas, tão industrialmente retas,
      e tiro energias de uma profundeza muita escura, muito distante,
      para florescer, delicadamente, pequenos milagres de felicidade

      a dor não vai passar,
      não
      saber não alivia

      acreditei, um dia, que a solução seria abrir os olhos e ver, e em vendo, dissolver, devolver tudo para suas devidas proporções, alargar definitivamente o fio da navalha
      minha ingenuidade

      meu resto de ignorância sente fome por sua parte perdida
      sonhos virginais de mocinhas casadoiras, em suas sacadas abertas para a vida
      a esperança fácil de quem não sabe nada além do próprio quinhão

      pois então, abri meus olhos, e vi
      durante algum tempo embasbacado pela imensidão daquilo, as formas, as cores impossíveis, a coerência de tudo
      pela primeira vez fiz sentido
      e, ah, como foi bom, como foi esclarecedor, como foi um alívio
      eu ainda acreditava no poder do saber, tive a carga retirada dos meus ombros
      mas o peso, esse não diminuiu

      a dor não vai passar
      a vida não fica mais fácil
      as sombras só se aprofundam

      aos problemas antigos, juntei os novos, numa orquestração de pensamentos nunca prevista, para entender que não, a dor não vai passar
      esse não é o caminho, o caminho da não-dor
      nunca poderia ser assim, essa não é a minha paz

      a dor não vai passar
      não
      não mesmo
      ja aceitei isso

      tudo aceitei
      toda a dor, todo o sofrimento, todos os sonhos esmagados, todos os gritos sufocados, todos os socos incapazes, todas as revoltas capituladas, todas as fraquezas, todos os defeitos, todos os erros, tudo
      em tudo me aceito
      em tudo reconheço importância, todos os sonhos de velocidade e chão, todos os anseios de silêncio, toda covardia, toda dúvida, toda incapacidade
      em tudo me reconheço e me aceito
      sinto amor por cada parte

      a dor não vai passar
      minhas unhas quebradas de tanto cavar são a garantia disso
      mas ainda assim,
      mesmo que com a cara lavada de dor,
      eu amo
      sorrio
      e agradeço