Vida Continuada
pq ela continua, independente de vc e eu.
12.8.09
4.6.09

Uma estranha descoberta confunde botanistas; espécie desconhecida de palmeira floresce até a morte.
Sem nenhum parentesco próximo com qualquer outro tipo de palmeira, podendo alcançar até 18 metros de altura, desabrocha apenas uma vez numa infinidade de pequenas flores gorduchas, afirmaram os pesquisadores responsáveis pela descoberta. Este processo drena a árvore de seus nutrientes, acrescentaram, levando-a ao que foi descrito como um "triste, se não macabro, fim".
No entanto as flores, que podem se desenvolver em frutos, atraem enxames de insetos e pássaros, garantindo a sobrevivência da próxima geração.
A palmeira auto-imolada, com nome científico de Tahina spectabilis, é a maior da sua espécie na ilha, com folhas em forma de leque cobrindo uma área equivalente a uma quadra de tênis.A questão de como passou tanto tempo desapercebida pode ser explicada, parcialmente, por sua localização. Escondida ao pé de uma imensa formação rochosa, tinha sua copa parcialmente escondida, fator agravante em um distrito em que o próprio terreno, inundado com freqüência, garante a dificuldade de acesso. Apesar disso, o pesquisador John Dransfield afirmou que a imensa copa pode ser vista através do google earth.
Outro possível motivo para a recentemente perdida anonimidade pode ser seu longo ciclo de vida, sugere Drainsfiled, que poderia tornar seu momento de florescimento-e-morte num evento raro, particularmente diante da estimativa de que menos de 100 palmeiras dessa espécie existam no distrito de Analalava, donde jamais sairam.
18.5.09
Esboço I
- Se houvesse algum motivo maior, alguma obrigação ulterior, alguma meta cósmica para a humanidade, seria a transcendência do animal. -
Houve época em que achava que a vida era um grande problema a ser resolvido. Houve época em que bastava encontrar uma solução, um graal, para todo o resto encaixar. Mas infelizmente, com o passar dos anos, percebi que a vida são vários grandes problemas a serem resolvidos, alguns seqüenciados, alguns concomitantes.
Era eu então, nessa época antiga, um investido monotemático na missão de sobrepujar os males da aparência adolescente, com todo seu desconjutamento, adicionada a uma crise galopante de psoriase que me acompanhou por anos. Veja bem, eu não só tinha psoriase, não só era adolescente, mas era carioca no começo da moda jiu-jitsu, ou seja, meu futuro imediato tinha quase que garantida a sensação de segurar um fio lambuzado em cerol enquanto ele é puxado pelo vento. Interessante pensar nisso hoje em dia, afinal, me descobri não só maior que a psoriase, mas também desejável mesmo infestado de placas brancas que escamam, e mais desejável ainda uma vez sanadas as equimoses. Mas voltando ao cerol e ao vento, ali estava eu, bonito, alto, inteligente e saudável, sem ter a menor idéia de nada disso. Para mim, era feio, motivo de asco e pilhéria, e tinha de, conseqüentemente, descobrir outros pontos de apoio além dos suspeitos usuais. A sedução do olhar não seria minha, a facilidade dos desejados não seria minha. Minha seria a profunda insegurança daqueles que foram, desde muito cedo, privados de um olhar atencioso ou de algum alento familiar diante das muitas pedradas que nos esburacam a vida. Meu era o pânico no outro, então minha era a necessidade de reinvenção. Num mundo ditado pelo sucesso social-selvagem, me encontrei em meio a lâminas e sal grosso, me encontrei afundado num mundo em que a força física e o maltrato do pária eram as medidas do sucesso. Nesse mundo de selvageria e violência, comecei minha reinvenção.
(continua)
8.5.09
One froggy evening
tenho profunda simpatia pelo sapo
(e uma disposição cansada, mesmo que paciente, para com o leigo)
a barbela se manteve, eficiente, mesmo depois de desacreditada
22.3.09
Herzog on the obscenity of the jungle
"but, when i say this, i say this all full of admiration for the jungle. Its not that i hate it, i love it, i love it very much, but i love it against my better judgment."
20.3.09
Fito Paez
Te vi
Juntabas margaritas del mantel
Ya sé que te traté bastante mal
No sé si eras un angel o un rubí
O simplemente te vi.
Te vi
Saliste entre la gente a saludar
Los astros se rieron otra vez
La llave de mandala se quebró
O simplemente te vi.
Todo lo que diga está de más,
Las luces siempre encienden en el alma
Y cuando me pierdo en la ciudad
Vos ya sabés comprender
Es solo un rato no más
Tendría que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi
Yo no buscaba nadie y te vi.
Te vi
Fumabas unos chinos en Madrid
Hay cosas que te ayudan a vivir
No hacías otra cosa que escribir
Y yo simplemente te vi.
Me fui
Me voy de vez en cuando a algún lugar
Ya sé, no te hace gracia este país
Tenías un vestido y un amor
Y yo simplemente te vi.
Todo lo que diga está de más,
Las luces siempre encienden en el alma
Y cuando me pierdo en la ciudad
Vos ya sabés comprender
Es solo un rato no más
Tendría que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi
Yo no buscaba nadie y te vi.
4.3.09
mas me acostumo com as complexidades, que de tão comuns ficam simples, e dou o próximo passo. e outro, após mais outro.
enquanto isso, junto imagens.
meu rss feed
25.1.09
tum tum
tum
tum tum
tum
tum tum
cadenciado, sincopado
tum
tum tum
entreaberto, quase imperceptível
tum
tum tum
amor, raiva, vontade, repulsa
tum
tum tum
meu horizonte côncavo
tum
tum tum
minhas lágrimas de areia
tum
tum tum
meu sorriso, uma caimbra
tum
tum tum
as satisfações jazem enterradas
tum
tum tum
lâminas e camadas de chumbo
tum
tum tum
sincopadas, cadenciadas
vibrando imóveis
tum
tum tum
guardando em segredo
tum
tum tum
aquilo que é em mim
--
The Tiger
William Blake
Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee?
Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry
19.9.08
Confesso que me perdi durante algum tempo nas dobras desse processo, tomando vaidade por motivo, pensando que retorno era redenção.
Escrever passou a ser fome, e como todo faminto, justifiquei meus meios com o fim. Também como todo faminto, me contentei com restos. E como todo faminto, depois de um longo período de jejum, morri ao finalmente comer, meu corpo desacostumado com a digestão.
Outra fase de silêncio se seguiu.
Cada uma com sua própria marca, sentido e duração, mas todas constantes na ausência.
Agora meu talento goteja, a capacidade transborda, e a necessidade cala, enfim, me permitindo perceber que meu rastro não é raso nem facilmente eliminado. Isso tem um preço, e me faltava estofo para tanto, para suportar os retornos, digerir e interpretar.
Todos os tocados, todos os marcados, todos os que foram traçados e cortados, arados, abertos e expostos. Todos, um repertório extenso que me acompanha, incapazes do esquecimento, seja para o meu bem ou para o meu mal.
A vocês, meus fantasmas, a vocês, meus espelhos, a vocês, meus motivos, um minuto de silêncio.
A vocês, que são minha história, uma lápide, uma rosa e uma pá de cal.
A ancora se desfez na ferrugem.
A vida me espera.
27.8.08
"A sensitive person receives fifty impressions where somebody else may only get seven. Sensitive people are so vulnerable; they’re so easily brutalized and hurt just because they are sensitive. The more sensitive you are, the more certain you are to be brutalized, develop scabs… I can’t trust anyone enough to give myself to them. But I’m ready. I want it. And I may, I’m almost on the point, I’ve really got to … Because—well, what else is there? That’s all it’s all about. To love somebody."
Marlon Brando in a profile of him done by Truman Capote for The New Yorker magazine in 1957 titled, The Duke in his Domain.
5.6.08
Sobre Segredos e Chão
muitos, de muitas pontas.
são muitos os fatos, me populando, sendo legião.
são muitas as quinas, muitas as câimbras, muito me faço torto, porque os encaixes são poucos e o desejo, imperioso.
são tantos, esses segredos, que acabo sozinho, rei do reino, penando por campos, negando a água, negando o sol, negando o pasto e o sal.
Dessa minha arena pública, desses meus enigmas partilhados, dessa face que mostro,
ninguém percebe,
ninguém entende,
ninguém sabe
da vida transfigurada em chumbo
das profundezas, plúmbeas, sufocantes de cinza
estruturada para a continuidade, sem espaço para o vôo
permaneço preso ao chão, fazendo-me ancora de sonhos
como sempre foi, agrilhoado no que nunca deixará de ser
chumbado na cantinela do dia a dia
dervixe estático
acumulando tensão
de chumbo me fiz
de chumbo me cubro
na densidade, sou
e ainda assim surpreendo, sou causa de estranheza
olham torto, não entendem, não concedem a possibilidade;
alguém abriu mão de ser feliz.
mas acontece
abri mão, desviei os olhos da meta
essa universalidade não é minha
não sei absorver
é uma vida peculiar, por assim dizer, uma vida sólida
muitos apontariam para dizer; "Vida ruim! Vida de dor!"
mas eu, bem,
não colocaria dessa forma
existe algo de real, algo verdadeiro
algo que compensa todo resto
algo que não existe na realidade dos sorrisos e pequenas conquistas
algo que não existe nas pequenas metas, nas pequenas satisfações
é uma realidade dura, para poucas disposições
minguados os que tentam, raros os que conseguem
mas ainda assim, insisto
a felicidade, afinal, apesar de boa meta, justificável, sensata, não carrega em si nada que contradiga o óbvio, nada que sugira uma rota de fuga, nada que permita o fim da samsara
é aceita, é partilhada, é parte da pasteurização
não encaixa, romântica que é, na placa de petri em que vivo cada dia
abri mão, sim, da felicidade
surpreendentemente, ela acontece
por mais que alienígena
por mais que renegada
surpreendentemente, a vida se apresenta
nas ofertas colocadas, nas opções sugeridas, na idéia e na hipótese, a vida me surpreende
ela se impõe
mostrando a face que agrada
girando mais uma vez a roda
coloca em mim as justificativas para tentar
e aceito, aceito a impressão, aceito a dor de querer e pensar que é possível
surpreendentemente
essa coragem
essa idéia
que vai decantando em mim
se transforma, grão a grão, no chão do que sou
para que um dia, enfim ereto, enfim de pé, sem apoios ou escoras, possa absorver, totalmente, o horizonte que sempre me pertenceu.
Até lá, sigo cinza, sigo dizendo não.
15.4.08
Sobre pedaços perdidos de história
Dentro das expectativas encontrava tudo que era preciso para subsistência. Alguma escuridão para pedir a luz, alguma luz para justificar a escuridão.
Dias com suas horas cheias de minutos apinhados de segundos gotejantes de nada, transbordando nada, me afogando em nada. Subsistindo no nada.
--
da inveja que me corrói, quando te vejo assim, tiro poucas lições e priorizo as cicatrizes. Chafurdo em piedade apodrecida, concorro com ácaros por restos do seu rastro, me alimentando de pele e cabelo, vivendo à sombra.
--
Mas havia aquela hora, perto do fim da noite, antes do começo do dia, quando tudo aquietava e a manhã ainda era límpida em suas possibilidades. Nesse momento, durante poucos minutos, o plano se revelava e tudo parecia valer a pena, as dores justificadas e os trilhos, tão retos, podiam, enfim, se encontrar no horizonte.
25.3.08
Sobre um Pêndulo
depois de tanto tempo, algo interessante
de conclusões novas e novas possibilidades
mesmo que travestido de nuvens pesadas
mesmo que embalado na inércia de coisas escuras
um novo caminho se apresentou
e o pêndulo varia
habitando novos espaços
oxidando em novos ares
--
a piedade e compreensão podem nascer nos momentos mais insuspeitos.
uma flor de lótus no seu reino de lama.
3.3.08
Sobre Modus Operandi
01) analise, classifique e compartimente
02) respeite o prazo nas etiquetas
03) na ausência de imediatismo prático, assumir desprendimento específico
04) reconhecer as variáveis possíveis, ajustar estoque de reações conforme
05) diante de variáveis de resolução impossível, recorrer as práticas supracitadas nos pontos 2 e 3
06) separar parte da capacidade para a manutenção do minuto de espera, da hora de espera e do dia de espera.
07) definir o tanto necessário para que a espera - minuto, hora e dia - seja administrável
08) em momentos de baixa, recorrer à ciência
09) atenção especial na manutenção da clareza, no correto dimensionamento, na devida reação
10) incluir a impermanência em todos os cenários previstos
11.2.08
Sobre Custos
aqui não reside uma pessoa feliz
estejam todos avisados
desta entrada escura não sairão sorrisos e alegrias
aqui reside-se numa caverna que não se sabe o fundo
morcegos revoam pelo teto, coisas rastejam cegas, goteja-se sem som
a todos os que aqui entram; entendam
nessa escuridão a luz não vive e o tato é o que resta
entendam
as arestas são afiadas e o avanço é cobrado em sangue
entendam que nem eu sei o prêmio dos que pagam as profundezas
as paredes não sabem de dor ou sangue ou motivos
Sobre o Caminho
do formato do crânio
e do jeito que o cabelo enquadra as orelhas
dos dentes como o de minhas sobrinhas
e das maçãs do rosto, de futuro tão óbvio quanto um espelho
de tudo mais que só imagino, me dói a semelhança do que sei, semelhança herdada, herança maldita
que dói tanto, que vaza pralém do poço em que foi enterrada, que contamina córregos e envenena rebanhos, mata flora e fauna, que me relega desertos cheios de som e fúria e nada mais.
e esse é o caminho, não procuro mais desvios, não procuro mais saídas.
esse é o caminho, e os anos vão dizer o peso e o custo de cada passo.
20.11.07
Sobre sabedoria
(lembre-se disso)
e leveza.
mas, se ainda doer, se ainda te disser; pessoa patética!, lembre-se:
são lições
(lembre-se)
12.11.07
Sobre Sonhos
mas sou assim, prático ao ponto da paralisia, tão lógico que dou a volta completa e alcanço, por detrás, o absurdo. incoerente de tanta explicação.
e não controlo meus sonhos, e não controlo mais nada, e me vejo assaltado por detalhes que grudam na minha pele, queimam meus olhos e inundam minha vida com coisas antigas e perdidas.
pequenos detalhes
fios muitos lisos e escuros
a posição de alguma mancha
a distribuição dos músculos
e um distanciamento quase piedoso que me faz querer berrar a injúria da piedade e tomar tudo para mim, como neanderthal em que me transfiguro diante da catedral da sua ausência.
--
o que me salva é a minha praticidade
e lá pela hora do almoço, as coisas terão voltado ao normal.
22.10.07
Sobre um Poeminha
e você se perdendo
alguma coisa se destaca
levando, momento a dentro
do escuro para o breu
roçando em quinas
tropeço (suas minas!)
um tudo que ainda não morreu
me encontro então,
cego
me encontro então
morto
a morte em vida
a ausência ressentida
um sorriso sem dentes
escorado nas gengivas
arremedo de feliz
montado por feridas
galopo escuro adentro
contabilizo minha vida
mas
se na vida tivesse
em você um convento
num mártir redivido
encontraria algum contento
pois
a fé nos justifica
enquanto quem está e espera
pois
você me justifica
enquanto quem desespera
21.9.07
Sobre uma janela que ilumina
retomo, então, minhas regras, na espera, até a próxima estação de fragilidade.
Sobre Ritos e Dores
--
uma das minhas várias estranhices quando criança era minha relação de prazer quase masoquista com pequenos machucados.
nunca soube direito como isso se dava, mas a pele ralada, com o sangue seco cobrindo a carne exposta, me trazia sensações boas. não agradáveis, mas boas. como se eu pudesse sentir diferente uma parte minha que era invisível. como se eu pudesse ser.
pensava que os machucados eram, para mim, um símbolo de normalidade, algo esperado de crianças e, por isso mesmo, tão alienígenas na minha vida. me sentia mais normal tendo os cotovelos escalavrados em algum chão, para viver, enfim, merecedor como os outros.
nunca nenhum osso quebrado, nunca maiores problemas em função de desafios e provocações. nunca nenhum hematoma por brigas, nunca com os dedos doloridos. a vida passava por sobre minha incapacidade de levantar e impor.
--
me proibi certas coisas para não ter de lidar com certas esperanças.
(obediência nunca foi o meu forte)
sob esta luz, percebo que não gosto de reverberar, pq, no fim, reverbero em vão, apesar de reverberar, sim.
--
e a vida continua em sua vastidão sem me permitir o esquecimento, por mais esquecido que eu tente me fazer, e o mundo se faz enorme, para que eu permaneça, sem chegar, no caminho de casa.
20.9.07
Sobre tipos de Rios
Live
I have never taken Life
Yet I have often paid the price
And you, you are a victim of this age
And the guilt that hangs around your neck
Has got me locked up in a cage
You've got to learn to live until no end
But first you must learn to swim
All over again
Because...
Pain lies on the riverside
And Pain will never say goodbye
Pain Lies on the Riverside
So put you feet in the water
Put your head in the water
Put your soul in the water
And join me for a swim tonight
I have forever, always tried
To stay clean and constantly baptized
I am aware that the river's banks are dry
And to wait for a flood
Is to wait for life
I've got to learn to live until no end
But first I must learn to swim all
Over again,
Because...
Pain lies on the Riverside.
14.9.07
Sobre uma Pergunta com Asas
só, talvez, nunca tenha amado, nada
o encaixe atrofiado não aceita
e uma pergunta me circula;
- amor? que amor?
4.9.07
Sobre meu medo
medo da morte, medo do vazio de significado.
sem significados, nos definimos pela dor, nos pautamos pela força de sobreviver mais um dia, nos tornamos amargos na prática diária do próximo passo, da próxima espera, do próximo problema.
existe essa prática.
existem métodos para a sobrevivência, e a cada dia que passa desenvolvo novos, me afundo em antigos, respiro caminhos tortos para fins duvidosos e aprendo coisas que ninguém deveria aprender.
existe uma realidade.
dentre tantas, logo essa.
nela me expremo, de tão maior que sou, e choro, calado, minha claustrofobia de viver.
16.7.07
Sobre uma Porta Branca, que vibra quase imperceptivelmente
porta número 15, esse é o número certo. 15.
nada de diferente das outras portas, além do fato de ser a décima quinta. não sei exatamente pq a escolhi. não sei se escolhi, na verdade, mas uma vez escolhida, me parece perda de tempo exigir os porquês.
de volta a porta, ela é branca.
os números, cobre falso, daqueles que são de plástico, cor asa-de-barata. os números serifados, naquele estilo portão de casa, arrojo em fôrmas.
me parece que uma vibração vem do outro lado, mas nada muito perceptível. uma certa vida, por assim dizer, vibrando nas dobradiças, mas nada muito perceptível. posso até imaginar alguns significados, posso me colocar no centro de uma história, onde o pulsar vem pesado de significados, e cada variação de tom guarda uma mensagem secreta, de decifração impossível, mas a vibração não é assim tão perceptível.
uma vez diante da tal porta, branca, com números em cobre-falso, vibrando, mas nem tão perceptivelmente assim, me resta decidir o próximo passo. quantos passos são possíveis diante de uma porta branca vibrando discretamente?
- bater educadamente
- abrir de supetão
- abrir com cautela
- colar o ouvido para saber se alguém está
- dar meia volta e ir embora
- sentar, costas apoiadas no branco que vibra quase imperceptivelmente, e ponderar sobre a natureza das portas brancas
portas brancas poderiam ser uma metáfora do inefável.
não uma metáfora sobre o inefável, mas uma metáfora criada pelo inefável. uma porta branca, a décima quinta, pode guardar tudo dentro de si.
--
esta porta número 15, branca, com uma vibração quase imperceptível, tem um aparato de abertura.
digo aparato de abertura, ao invés de maçaneta, pq maçaneta é pouco para o aparato de abertura. existe uma maçaneta, sim, mas ela se encontra no centro de um halo branco e gelatinoso, pontilhado de pequenas manchas dançantes que são, na verdade, infinitas pupilas histéricas. este halo me parece, acreditem, com fome. fome de identificar, de cumprir sua função, e mais que isso, fome pela falta de propósito. a saciedade dos justos cumpridores do seu quinhão.
para abrir a porta, é preciso colocar a mão no centro do halo, para assim alcançar a maçaneta. no intervalo entre o começo da mão e o segurar da maçaneta, enquanto vc abre espaços na quase-carne translúcida, todos os seus sonhos são contabilizados, classificados e armazenados. suas conexões para a felicidade são especificadas e, no fim, o aparato de abertura sabe. sabe a ponto de renegar sua mão, numa lição dolorosa para aqueles que tentaram a porta que não lhes pertencia.
agora, diante da porta branca, número 15, de vibração quase imperceptível, e aparato de abertura cruelmente surreal, me pergunto o que fazer.
Sobre 29
momentos, sob momentos
e dias, após outros dias
e sombras brancas, e gólgotas pelas paredes, agrilhoado pelos punhos e tornozelos, com o coração devorado a cada fim de dia, Prometeu de minha megalomania.
meus fronts
sempre meus fronts e suas trincheiras.
cavadas na pele, endurecidas de sangue pisado, testemunhas de guerras sem nome, provas das minhas vitórias, estigmas das minhas derrotas.
o front do erro, do desvairo, do irreparável.
o front da irresponsabilidade, da vergonha, do inegável.
o front das exigências, para sempre impossíveis.
o front dos espaços externos, gelados, inóspitos e imensuráveis.
o front do meu amor.
--
compreendi.
compreendi sem palavras, compreendi num átimo.
compreensão inexplicável.
mas compreendi.
não fico mais tão triste, não fico mais tão ancorado em sombras, minha felicidade se descolou daquele momento e seguiu adiante, coágulo por artérias, atrasada, descompassada com meu presente, mas resoluta, definida desde sempre em sua função de morte
- sim, acredite, estou a ponto de te alcançar, portanto não desista, e dance, igual ao livro, igual ao oráculo, igual a fantasia, dance até seu coração explodir, até se dissolver em tudo, até se esvanecer em silêncio, até alcançar a amplitude branca que foi prometida. ela será sua, um dia.
um dia qualquer.
e, até lá, nos fronts, guerreando pelo silêncio, guerreando por vc.
2.7.07
Sobre Dissonância Cognitiva
The theory of cognitive dissonance states that contradicting cognitions serve as a driving force that compels the mind to acquire or invent new thoughts or beliefs, or to modify existing beliefs, so as to reduce the amount of dissonance (conflict) between cognitions. Experiments have attempted to quantify this hypothetical drive. Some of these examined how beliefs often change to match behavior when beliefs and behavior are in conflict.
14.6.07
Sobre o Cansaço
nem faz tanto tempo, tão eficiente, mesmo nos problemas.
eficiente na sabotagem, mas eficiente, mesmo assim.
agora, perguntas muito antigas rejeitaram suas respostas-irmãs.
a vida avança.
- não, você não entendeu. ela avança.
e a procura prossegue, incompleto, sem achar, realmente, o que eu quero.
mas questiono.
o primeiro passo para onde?
- não sei. eu não sei.
viver numa seqüência inescapável de coragem e fuga.
pelo menos para mim.
essa vida inescapável se entranhou. talvez tenha alcançado um acúmulo alto o suficiente para me fazer ver um novo pedaço dos espaços externos. talvez tenha me repetido demais.
visão quase real.
- o passado como uma parte de mim que teve sua alimentação cortada, mumificando, resistindo como meu testemunho morto. uma gigantesca massa de lodo cinza, vitrificada pelo calor.
será que será sempre assim?
será que a existência é isso, a vida é isso, as promessas são essas e o momento da paga já passou?
esse é o prêmio para quem sobreviveu?
cansaço terrível e imperioso.
28 anos e é nisso em que chegamos
- obrigado! obrigado por me permitir iluminar através de processos de perdão!
pro inferno
todos pro inferno
comigo na frente da procissão
1.6.07
Sobre Chão
(alguma coisa que abunda nos outros)
a esperança fácil, esse flanar pela vida, a crença no último respiro de ar quente que impede o chão.
meu chão sempre foi muito próximo
(e duro)
(e inevitável)
ocupando o que me falta, feliz na oposição ao vácuo, feliz num propósito simples, feliz aonde eu não sou, esse chão é meu companheiro constante na esperança.
mas meu chão nunca chegou, apesar da vivência permanente do impacto, dos dentes partidos e do rosto em polpa.
meu chão nunca chegou, e parte de mim segue presa, esperando a dor.
25.4.07
Sobre Falcões
W. B. Yeats
Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all convictions, while the worst
Are full of passionate intensity.
Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?
9.4.07
Sobre o Frio
das suas avenidas hemorrágicas em sua morte lenta, do massacre diário até o recolhimento das sobras, como é possível?
é o frio, eu respondo
o frio que permite
Sobre um Rio
pouca vista, paisagem escassa, é verdade, mas tenho conforto, e as coisas soam como vindas de mim
lembro das paradas anteriores
um banco de areia, numa curva
uma pedra muito dura, com alguma maciez no musgo
e antes, o primeiro galho, o primeiro lugar onde pude me levantar acima da linha d'água
no começo, respirar era a única agenda, alguma forma de escapar do sufocamento
meu mérito era o ar
depois, meus pulmões cheios não eram suficiente, queria meu corpo por inteiro, queria secar tudo que ainda vivia submerso, evaporar cada gota.
meu mérito seria o sol
nessa época ainda não percebia inteiramente os custos de uma esperança, muito menos os verdadeiros riscos de tentar
nas primeiras percepções de felicidade, deformadas em mim, tudo valiosamente frágil, um castelo de cartas e um ventilador
para responder à vontade, precisava me deixar levar, talvez submergir novamente, talvez afogar, enfim
do galho para a pedra, da pedra para a areia, o processo se repetiu, mas eu não
não me dispus as mesmas dores
gosto de pensar que cresci, que descobri a incrível capacidade de boiar, que entendi a dinâmica dos fluxos
não sei se afoguei alguém no frenesi pela superfície, e, sinceramente, não me acredito mais tão capaz, tão poderoso
as ondas me ensinaram
e deixei de me importar
agora tenho algumas plantas e algum conforto
estou seco há muito tempo, deixei o sol lidar com os resquícios do percurso
me cerquei de mim mesmo
e, no entanto, as águas escuras me chamam
escuto meu nome nas ondas
minha pele seca e o meu passado
entendemos, afinal, a beleza da umidade
28.3.07
Sobre Recados
Luiz Melodia
Tente passar pelo que estou passando
Tente apagar este teu novo engano
Tente me amar pois estou de amando
Baby, te amo, nem sei se te amo
Tente usar a roupa que eu estou usando
Tente esquecer em que ano estamos
Arranje algum sangue, escreva num pano
Pérola Negra, te amo, te amo
Rasgue a camisa, enxugue meu pranto
Como prova de amor mostre teu novo canto
Escreva num quadro em palavras gigantes
Pérola Negra, te amo, te amo
Tente entender tudo mais sobre o sexo
Peça meu livro querendo eu te empresto
Se intere da coisa sem haver engano
Baby, te amo, nem sei se te amo
16.3.07
Sobre Moscas
moscas na minha garganta
asas esbarrando em molares na pressa de sair
em meus olhos
lágrimas negras de moscas
e pelos cabelos, frenéticas
moscas debatendo moscas
e o zumbido
e o zumbido
e o zumbido
2.3.07
Sobre o Mar
estranhamente, o resultado é bom.
freud deixou o prédio
cansei desse relativismo
prefiro meus símbolos
meu códice
o entendimento e a tentativa
meu amor
silenciosos
todos eles, silenciosos
mas todos eles, hoje, plenos
e assim ficam, plenos
até o fim das possibilidades
(e dessa fé estranha que me empurra)
me faltam palavras, me falta bagagem, pra exprimir certas coisas, alguns momentos, o que eu sinto por vcs, meus sinais de desespero
minha felicidade torta
minha dor surda
meu humor cruel
um péssimo guia de mim mesmo
sigo dando todas as explicações
mesmo quando todos seguem não entendendo
supreendentemente, sou feliz
(o que não significa felicidade)
e tenho alguns momentos de encantamento
a visão menos turva
a pele sensível como deve ser
a febre ainda não passou
mas a convalescência se aproxima de um fim
durante muito tempo tudo foi como pus
parece que cicatrizei
28.2.07
Sobre Miguel
aquietado em lagos escuros e profundos, uma influência silenciosa definindo décadas, ondas cegas moldando a rocha
ideais
minha fome por heróis
I need a father. I need a mother.
I need some older, wiser being to cry to.
I talk to God, but the sky is empty, and Orion walks by and doesn't speak.
Sylvia Plath
Sobre Tamanhos
dos olhos embranquecidos, dos ouvidos quase surdos
uma escada que desce, promesas antigas
o negrume sem calor ou frio
quem está no fim? qual das mãos me espera, estendida?
desde antes, uma matriz conspurcada.
de onde vem a força? de onde vem a idéia da possibilidade?
minhas fronteiras selvagens resistem, sempre vão resistir
abandonado o paradoxo, aceita a dicotomia, o que me resta?
quem sou eu sem a minha dor?
..
vícios de linguagem e de sentir
tudo tão ultrapassado
..
o tempo passou, mesmo para mim, que sempre me senti tão lapidal
tudo mudou, mesmo que para permanecer
muitos ciclos, muitas reinvenções
não sou mais o que começou, não sou mais a metamorfose
não tenho mais versões
a vida se provou enorme
..
do meu avô materno, tenho pouco
manhãs à beira da piscina, regata branca, calça de pijama, chapéu de palha, voltas e voltas
a televisão e a cama, tv bandeirantes e o futebol, uma poltrona de couro encarquilhado
iodo na ponta dos dedos
meu ideal de biblioteca, parede enorme e livros de ponta a ponta, "a poeira ajuda na preservação dos livros", coleção de dicionários, um deles de truques mágicos, em francês
uma ex-libris que dizia ser possível saber o tamanho do universo se soubéssemos o tamanho do homem
e a vida se provou enorme
5.2.07
Sobre a Memória
teria grama orvalhada, mosquitos as seis e um pássaro que canta o começo do dia.
teria uma curva para a direita, numa ladeira, mata adentro.
lá do começo me vem tudo isso, a cerca branca, as paredes de madeira, os sofás, tantos, e suas salas, seus abajures, a prataria, louça azul e copos de haste, coca-cola em garrafas de um litro.
campainha embaixo da mesa, o cardápio nas mesmas baixelas, barulhos vindos daqueles espaços contra os quais todo o resto será comparado.
tenho em mim os armários antigos, caixas e bolsas, cornucópias que me trouxeram aqui, tão dentro de mim.
tenho em mim a leveza dessa história.
tenho em mim as cigarras.
tenho em mim o silêncio e as sombras do fim do dia.
30.1.07
Sobre a Coisa
dentro de mim, eu acho
se não dentro de mim, em mim
mas minha, essa Coisa.
pois então, como Coisa, e não como nome, me assombra o sono e nega a idéia de que vale a pena.
(mistérios precisam aceitar a ausência de respostas, e a Coisa não assenta nesse papel)
muitos rostos foram delegados, um punhado de explicações, vc e vc, mas nada aderiu à superfície d'Ela, escorrendo, sempre, para essas calhas que me coletam, negras.
insidiosa, a Coisa seria parda, se eminência, tanto que agora não sei mais onde Ela começa e onde termino de me entender.
mas um dia,
desnuda a Coisa e aveludada Suas quinas,
encontro o nome disso tudo que me escapa,
me cego de vez com a verdade,
me retiro das paredes, muradas e ameias,
a vigilância abandonada,
para poder, enfim, nada ver.
Sobre Leveza e Ossos
ou meus olhos morrem, enquanto olham em frente, sempre em frente, enfrentando o vento cortante de frio e tempo
minha caveira sobrevoa
ou minha alma ancora, engancha no litoral da sua boca, flutuando ao sabor do vento que não me carrega
minha caveira, ah, minha caveira, vc afunda
ou meu folego se transforma, processando lodo e expirando enxofre, me trazendo a vida cinza-esverdeada
minha caveira voa longe e alto
mas não me leva, corpo pesado, para onde ela sorri
4.1.07
Sobre Drummond e Reconhecimento
Carlos Drummond de Andrade
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
2.1.07
Sobre Auto-conhecimento
isso me esquentou como um tapa
logo quem, logo eu, logo o orgulho
minha reconstrução toda feita em cima de minhas medalhas, e vc vem me dizer que não tem mais orgulhos pessoais, como se isso fosse uma grande evolução
diz que está bem, que é feliz, que nunca esteve tão em si, e que andar na ponta dos pés não é mais um hábito
me senti tão pequeno, tão infantil
logo quem, logo eu, logo a maturidade
minha vida galgada em minhas dores, meus diferenciais marcados pela idade forçada antes da hora
auto-conhecimento, coragem, aceitação, harmonia, fluidez
zazen
me fez invejoso, querendo tudo isso
tantos sentimentos espinhosos brotando em mim, quando tudo que eu queria era o perdão silencioso e um retorno que ficou impossível há muito tempo
me tornei amargo, mesmo que essa amargura tenha sido destilada em silêncio
era muita coisa em jogo, mais do que vc pode imaginar
logo quem, logo eu, logo com vc
isso passou
dos meus orgulhos, dentre todos que compõe meu caos pessoal, um dos maiores é a minha capacidade de aprender, principalmente quando dói
foi bom ouvir um não, foi bom que tenha doído, foi bom me sentir pequeno
isso é coisa rara, meus sistemas impedem esse tipo de auto-percepção
(sim, necessito constante evolução, felizmente)
e uma dose de realidade se faz necessária, principalmente quando todas as suas defesas estão esquecidas e seu coração está na mesa
morri naquela noite, meu cadáver ficou na mesa do café, minha alma acompanhou vc até sua casa, para desaparecer, logo depois, no seu passado
essa parte da história termina aqui, junto com minha morte naquele café
mas, como não poderia deixar de ser, aquilo que sou sobreviveu, e como sobrevivente, não soube outra coisa além de vagar até em casa, para a continuidade daquilo tudo que eu queria mudar quando me joguei, esperando suas mãos na vazio, mãos que nunca vieram (nem nunca poderiam ter vindo, hoje eu sei)
sobrevivi, sim
logo quem, logo eu, claro que sobrevivi
essa é minha especialidade, vc não sabia?
o que era amargura esfriou numa dor mais branda, num aprendizado importante, mais um bloco nessa construção torta
vc ainda é muito importante, tenho a impressão que isso nunca vai mudar
me pergunto o que faria se te esbarrasse numa festa
acho que sentiria vergonha,
vergonha de minhas esperanças e tentativas, vergonha de ter acreditado que ainda valia a pena, que o esforço era válido, mesmo com tantos anos corroendo as lembranças do que foi bom
(sim, vergonha, eu sou um ser de orgulhos, não se esqueça)
talvez não falasse com vc, talvez pensasse que tudo que eu tenho pra te oferecer não importa mais, que fiquei muito para trás em minha pequenez de alma, em minhas metas tão terrenas
ou, talvez não, talvez conversássemos pacificamente, e eu poderia te contar como foi importante morrer naquele café, como foi longo o caminho que eu percorro, e como tenho um enorme carinho por tudo que passou, mesmo que sabendo que aquele sonho morreu junto de mim.
Sobre Unhas e Gratidão
aprendi a crescer à sua volta
envolvo com raízes grossas esse pedregulho de dor que me mantém,
aceito as quinas, tão industrialmente retas,
e tiro energias de uma profundeza muita escura, muito distante,
para florescer, delicadamente, pequenos milagres de felicidade
a dor não vai passar,
não
saber não alivia
acreditei, um dia, que a solução seria abrir os olhos e ver, e em vendo, dissolver, devolver tudo para suas devidas proporções, alargar definitivamente o fio da navalha
minha ingenuidade
meu resto de ignorância sente fome por sua parte perdida
sonhos virginais de mocinhas casadoiras, em suas sacadas abertas para a vida
a esperança fácil de quem não sabe nada além do próprio quinhão
pois então, abri meus olhos, e vi
durante algum tempo embasbacado pela imensidão daquilo, as formas, as cores impossíveis, a coerência de tudo
pela primeira vez fiz sentido
e, ah, como foi bom, como foi esclarecedor, como foi um alívio
eu ainda acreditava no poder do saber, tive a carga retirada dos meus ombros
mas o peso, esse não diminuiu
a dor não vai passar
a vida não fica mais fácil
as sombras só se aprofundam
aos problemas antigos, juntei os novos, numa orquestração de pensamentos nunca prevista, para entender que não, a dor não vai passar
esse não é o caminho, o caminho da não-dor
nunca poderia ser assim, essa não é a minha paz
a dor não vai passar
não
não mesmo
ja aceitei isso
tudo aceitei
toda a dor, todo o sofrimento, todos os sonhos esmagados, todos os gritos sufocados, todos os socos incapazes, todas as revoltas capituladas, todas as fraquezas, todos os defeitos, todos os erros, tudo
em tudo me aceito
em tudo reconheço importância, todos os sonhos de velocidade e chão, todos os anseios de silêncio, toda covardia, toda dúvida, toda incapacidade
em tudo me reconheço e me aceito
sinto amor por cada parte
a dor não vai passar
minhas unhas quebradas de tanto cavar são a garantia disso
mas ainda assim,
mesmo que com a cara lavada de dor,
eu amo
sorrio
e agradeço
